quarta-feira, 16 de outubro de 2019

CORINGA ("JOKER", 2019)

rA profusão de filmes de super-heróis e vilões de histórias em quadrinhos levou o grande diretor Martin Scorsese a criticar duramente a atual indústria cinematográfica, indicando que tais filmes não são cinema de verdade, uma vez que não transmitem aos espectadores emoções e sentimentos. Tudo isso pode até ser verdadeiro em se tratando de filmes da DC Comics e Marvel, mas não retrata a realidade do fenomenal filme "Coringa" ("Joker", 2019). 

Coringa é o grande filme de 2019. É uma mistura de obra de arte com entretenimento no seu grau máximo. Não há cena desnecessária, não há cena sem sentido, não há cena que não gere reflexões. É a violência do cotidiano, a realidade nua e crua da sociedade, é a desilusão dos doentes mentais, é a falta de sensibilidade do ser humano, é a falta de empatia do ser humano em ambientes urbanos.

Temos no filme a atuação visceral de Joaquim Phoenix como Arthur Fleck, indiscutivelmente a melhor do ano e desde já favorita ao Oscar do ano que vem. É simplesmente arrebatadora a sua personificação do Coringa. O Coringa é isso: é doente mental, é um delinquente nato, é, principalmente, o agente do caos. A risada soa muitas vez como deboche, outras tantas como delírio de loucura, outras ainda como uma tristeza intrínseca ao personagem.

O filme acompanha toda a trajetória do ilustre vilão: o começo como palhaço e comediante de stand up comedy, fracassado; sendo maltratado na rua e pelos colegas de profissão; os problemas da mãe e com a mãe; a descoberta da possibilidade de ser filho do ricaço Wayne; a busca do suposto pai; a decepção com o suposto pai; o primeiro contato com uma arma de fogo; as dificuldades com os remédios que controlam seu distúrbio mental; os primeiros assassinatos, envolvendo três homens no metrô; a morte de sua mãe; a ilusão que teria encontrado uma namorada; o assassinato ao vivo na televisão do apresentador Murray; as rebeliões em Gotham City; a prisão; o manicômio. 

Enfim, um filme intenso, um retrato de como a sociedade pode ser violenta, inclusive psicologicamente. 

Cotação: ***** (excelente)

SUCESSO DE BILHETERIA: Sim.

SUCESSO PERANTE O PÚBLICO: Sim.

SUCESSO DE CRÍTICA: Sim.

PRÊMIOS: Leão de Ouro/Veneza 2019.
 

 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

"MULHER MARAVILHA" (WONDER WOMAN, 2017)

Ultimamente os filmes da DC Comics vinham decepcionando um pouco, sendo certo que Batmam vs Superman não foi o sucesso de crítica esperado e se transformou em um filme apenas mediano, embora tivesse potencial para ser melhor. Tal fato não aconteceu com o longa “Mulher Maravilha” (Wonder Woman, 2017), um inesperado sucesso de público e, principalmente, de crítica.

Primeiramente, palmas para a escolha da atriz principal do longa, Gal Gadot.  A belíssima israelense, miss daquele país em 2004, já havia sido apresentada (e se saído muito bem) no longa anterior, “Batman vs Superman”. Ela tem o “timing” perfeito para o papel – é bonita e sensual (como a lenda indica), não abusa de caras e bocas e tem uma interpretação segura e correta.

A diretora tem poucos trabalhos conhecidos, mas mostrou-se competente nas empreitadas mais famosas.. Trata-se de Patty Jenkins, que já dirigiu anteriormente um filme muito bom, a saber, Monster-Desejo Assassino, que conta a história de uma serial killer americana e que deu o Oscar de Melhor Atriz para Charlize Theron.

O roteiro coloca a Mulher Maravilha em plena Primeira Guerra Mundial, embora os quadrinhos situem a heroína na Segunda Grande Guerra. E os vilões parecem realmente muito mais nazistas do que alemães da Primeira Grande Guerra. Mas isso é apenas um detalhe. A ação é bacana, a história é bastante coordenada e de fácil entendimento e assimilação. Começa com a apresentação da belíssima ilha onde nasceu a heroína e viviam as guerreiras amazonas (Themiscyra), entre elas, a mãe  e tia de Diana (nome da semideusa que viria a ser a Mulher Maravilha).  Desde cedo Diana aprendeu a arte da luta e da guerra com suas parentes, em particular com sua tia. Alguns críticos não gostaram da apresentação da ilha, opinião da qual discordo.

O mote para a continuidade do filme (nesse filme e nos próximos lançamentos) é o aparecimento do que virá a ser o “namorado” da Mulher Maravilha, o espião Steve Trevor, interpretado por  Chris Pine. A partir da relação entre os dois surge a veia cômica do filme, o que, aliás, faltou no filme anterior da DC Comics que envolveu Batman e Superman. As piadas, principalmente derivadas da ausência de experiência da heroína com a civilização, são bem conduzidas e interessantes. 

Interessante também é a evocação constante da mitologia grega no enredo de Mulher Maravilha.  Segundo a heroína, o Deus da Guerra, Ares, é o vilão a ser eliminado, o que contrasta com a visão de Steve Trenor, sabedor da lenda.

Os parceiros da heroína na empreitada também são interessantes. Destaque para um árabe, ao mesmo tempo sofredor e esperto.

As cenas de violência também são interessantes, filmadas em uma perspectiva mais lenta. Gal Gadot também arrasa com seu chicote dourado (um efeito muito bonito) e seu escudo.

É impossível também não observar um viés feminista no filme, mas nada exagerado. A heroína faz o que muitos homens não tem coragem – enfrentar de peito aberto um exército bem armado e perigoso. É o delírio triunfante de uma personagem que, desde que foi criada anos atrás, tinha como objetivo ser uma mulher de força, poder e coragem.

É, enfim, um filme que funciona maravilhosamente bem e que merece ser visto. Sem dúvida, a primeira boa diversão da DC Comics em anos.

Cotação: * * * 1/2 (bom/muito bom)

SUCESSO DE BILHETERIA: Sim.

SUCESSO PERANTE O PÚBLICO: Sim.

SUCESSO DE CRÍTICA: Sim.

PRÊMIOS: Nenhum.